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Nevus de coroide ("pinta no fundo do olho"): o que é, risco de melanoma e como acompanhar

O nevus de coroide é uma lesão pigmentada benigna da camada vascular do olho — uma espécie de 'pinta' no fundo do olho. Quase sempre é inofensivo e descoberto por acaso em um exame de rotina, mas exige acompanhamento porque uma pequena parcela pode se transformar em melanoma de coroide. Entenda a diferença entre nevus, melanocitoma e melanoma, e como o oftalmologista acompanha essas lesões.

Retinografia mostrando nevus de coroide — lesão pigmentada plana na retina periférica.

Durante uma consulta oftalmológica de rotina, é comum o paciente ouvir a expressão "você tem uma pintinha no fundo do olho". Essa lesão, na maioria das vezes, é um nevus de coroide — uma mancha escura, plana, localizada na camada vascular que fica logo abaixo da retina. É o equivalente ocular de uma pinta de pele: uma coleção de células pigmentadas (melanócitos) agrupadas em um ponto específico.

Retinografia mostrando nevus de coroide — lesão pigmentada plana visível no fundo do olho.

Na grande maioria dos casos, o nevus de coroide é benigno, assintomático e descoberto por acaso durante o mapeamento de retina ou a retinografia. Mas ele precisa de atenção por um motivo específico: uma pequena parcela dessas lesões pode evoluir ao longo dos anos para melanoma de coroide, o tumor intraocular maligno mais frequente do adulto. Por isso, mesmo sendo benigno, o nevus merece acompanhamento periódico com exames dirigidos.

O que é a coroide?

A coroide é uma camada rica em vasos sanguíneos e pigmento que fica entre a retina (onde a imagem é formada) e a esclera (a parede branca do olho). Ela é responsável por levar oxigênio e nutrientes para a retina externa e para a mácula, além de absorver a luz que atravessa a retina, funcionando como um 'fundo preto' dentro do olho.

A coroide contém naturalmente muitos melanócitos — as mesmas células que dão pigmento à pele. Quando um grupo localizado de melanócitos se multiplica um pouco mais do que o resto, forma-se uma área mais escura e discreta: é o nevus de coroide.

Quão comum é o nevus de coroide?

O nevus de coroide é bastante comum na população adulta. Estima-se que cerca de 5% a 10% dos adultos tenham pelo menos um nevus de coroide em algum olho, dependendo da população estudada. A maior parte das pessoas com nevus nunca saberá disso, porque ele não causa sintomas e só é visto quando o oftalmologista examina o fundo de olho com dilatação.

A lesão costuma ser única, plana, com bordas bem definidas, cor cinza-ardósia ou marrom, e localizada na retina periférica ou próxima ao polo posterior. Raramente causa baixa de visão — a menos que esteja exatamente sob a fóvea (o centro da mácula) ou que gere alterações secundárias como líquido sub-retiniano ou fluido macular.

Como o oftalmologista encontra e avalia um nevus

O primeiro passo é sempre o mapeamento de retina (ou oftalmoscopia indireta), feito com o olho dilatado por colírio, para ver toda a periferia da retina. A retinografia colorida fotografa o fundo de olho e documenta a lesão, permitindo comparar o mesmo ponto meses ou anos depois para verificar se cresceu, se mudou de cor ou se surgiram sinais novos.

A diferença entre um fundo de olho normal e um fundo com nevus de coroide costuma ser bem clara nas fotos lado a lado. No olho normal, o fundo é uniforme, com cor alaranjada/avermelhada do epitélio pigmentado da retina e vasos da retina bem visíveis partindo do nervo óptico. No nevus, aparece uma mancha escura, mais acinzentada ou marrom, sob os vasos da retina — que continuam passando por cima da lesão sem se alterar.

Comparando as imagens: fundo de olho normal x nevus de coroide

As duas retinografias a seguir ajudam a entender como a lesão aparece no exame. A primeira imagem mostra um fundo de olho sem alterações pigmentares. A segunda mostra um nevus de coroide — note a área escura bem delimitada, sem elevação significativa e sem interferir nos vasos da retina que passam por cima.

Exames que ajudam a caracterizar o nevus

Quando a lesão levanta alguma dúvida, o oftalmologista costuma solicitar exames complementares para caracterizá-la melhor. Os principais são:

OCT de mácula e EDI-OCT de coroide — A tomografia de coerência óptica mostra se a lesão é realmente plana ou se tem elevação, mede a espessura e identifica sinais importantes como líquido sub-retiniano sobre a lesão, alterações no epitélio pigmentado ou presença de drusas na superfície (drusas costumam estar associadas a lesões crônicas e estáveis).

Autofluorescência do fundo de olho — Ajuda a identificar pigmento laranja (lipofuscina) na superfície da lesão, um sinal que aumenta a suspeita de crescimento ativo e deve ser valorizado.

Ultrassonografia ocular (modo A e B) — Muito útil quando a lesão parece elevada ou quando há dúvida se é realmente um nevus plano ou já um pequeno melanoma. A ultrassonografia mede a espessura com precisão e avalia a refletividade interna do tumor, característica do melanoma.

Angiofluoresceinografia e angiografia com indocianina verde — Exames contrastados que podem ser pedidos em casos selecionados para avaliar a vascularização e a atividade da lesão.

Nevus, melanocitoma e melanoma: qual é a diferença?

São três entidades que compartilham a origem nos melanócitos da coroide, mas têm comportamento e prognóstico bem diferentes.

Nevus de coroide é a lesão benigna mais comum. Costuma ser plana (espessura geralmente menor que 2 mm), estável por anos, sem líquido sub-retiniano e sem sintomas. A chance de transformação em melanoma é muito baixa — estima-se por volta de 1 em 8.000 nevus por ano para lesões sem nenhum fator de risco. Quando há fatores de risco (ver adiante), esse risco sobe significativamente.

Melanocitoma é uma variante específica, geralmente localizada sobre ou adjacente ao nervo óptico. É formado por melanócitos de aspecto mais 'escuro e uniforme' ao microscópio. Costuma ser benigno e estável, mas também precisa ser acompanhado, porque em uma pequena minoria dos casos pode sofrer necrose (com inflamação, hemorragia e perda de visão transitória) ou, muito raramente, evoluir para melanoma. A taxa estimada de transformação maligna do melanocitoma é baixa, geralmente citada em torno de 1% a 2% ao longo de anos de acompanhamento.

Melanoma de coroide é o tumor intraocular maligno mais frequente do adulto. Ele pode surgir a partir de um nevus pré-existente ou já nascer como melanoma. É mais espesso, costuma apresentar crescimento documentado, líquido sub-retiniano, pigmento laranja (lipofuscina) na superfície, sintomas visuais e, em estágios mais avançados, comprometimento da visão e risco de metástase para o fígado. O tratamento é individualizado — pode envolver braquiterapia (placas radioativas), radioterapia externa, laser, ressecção local ou, em casos avançados, enucleação (remoção do olho).

Quais são os sinais de alerta em um nevus?

A literatura oftalmológica, incluindo guias do EyeWiki e estudos clássicos do grupo do Wills Eye Hospital, descreve fatores de risco para transformação de nevus em melanoma. Essas características são lembradas pelo acrônimo TFSOM-DIM (em inglês), que o oftalmologista usa mentalmente a cada exame. Traduzido para o paciente:

Espessura aumentada — nevus com mais de 2 mm de espessura na ultrassonografia merecem atenção especial.

Líquido sub-retiniano — presença de líquido sobre ou ao redor da lesão é um sinal importante.

Sintomas visuais — baixa de visão, moscas volantes novas, flashes ou alteração de campo visual relacionados ao olho da lesão.

Pigmento laranja (lipofuscina) na superfície da lesão, visto na retinografia ou na autofluorescência.

Proximidade ao nervo óptico — lesões a menos de 3 mm do disco óptico têm risco um pouco maior.

Ausência de drusas — drusas sobre a lesão sugerem cronicidade e estabilidade; sua ausência aumenta a suspeita de lesão ativa.

Ausência de halo despigmentado — um anel claro ao redor do nevus costuma indicar lesão antiga e estável.

Diâmetro maior que 5 mm.

Quanto mais fatores presentes, maior a chance de se tratar de um melanoma pequeno em vez de um nevus estável — e maior a necessidade de encaminhamento a um especialista em oncologia ocular para avaliação dedicada.

Como é o acompanhamento de um nevus de coroide?

A rotina costuma ser individualizada, mas em linhas gerais o acompanhamento inclui:

Consultas periódicas com mapeamento de retina e retinografia para comparar o mesmo ponto ao longo do tempo e detectar qualquer mudança. Lesões sem fatores de risco costumam ser reavaliadas a cada 6 a 12 meses; lesões com fatores de risco têm acompanhamento mais frequente, geralmente a cada 3 a 6 meses.

OCT periódico da lesão e da mácula adjacente para monitorar espessura, presença de líquido sub-retiniano e alterações da retina sobre a pinta.

Ultrassonografia quando a lesão é espessa ou quando surgem sinais de crescimento.

Em caso de qualquer sinal de crescimento ou surgimento de fatores de risco, o paciente é encaminhado a um especialista em tumores intraoculares para avaliação e decisão sobre tratamento específico.

Preciso me preocupar se me descobriram uma pinta no olho?

Na imensa maioria dos casos, não é motivo para pânico. Um nevus de coroide sem fatores de risco é uma variação benigna, como ter uma pinta na pele. O mais importante é não abandonar o acompanhamento: retornar no intervalo recomendado, trazer as retinografias anteriores para comparação e procurar o oftalmologista se surgir qualquer sintoma visual novo no olho afetado.

O objetivo do acompanhamento é identificar bem cedo qualquer mudança. Melanomas de coroide descobertos ainda pequenos têm prognóstico visual e sistêmico muito melhor do que os diagnosticados tardiamente — por isso o olhar atento do oftalmologista sobre uma 'simples pintinha' é tão importante.

Quando procurar avaliação oftalmológica

Qualquer pessoa adulta que nunca fez mapeamento de retina com dilatação pode se beneficiar de uma avaliação de rotina. Se você já teve o diagnóstico de nevus de coroide, procure o oftalmologista imediatamente se notar:

Baixa de visão nova ou progressiva em um dos olhos.

Flashes de luz persistentes, moscas volantes novas em grande número ou uma sombra/cortina no campo visual.

Distorção de linhas retas no olho afetado.

• Perda da visão periférica em uma parte específica do campo.

Na dúvida, sempre prefira avaliar. O diagnóstico precoce é o fator mais importante no manejo das lesões pigmentadas da coroide.

Referências e leitura adicional

As orientações deste artigo se baseiam em fontes públicas de referência em oftalmologia, incluindo o EyeWiki (enciclopédia colaborativa mantida pela American Academy of Ophthalmology) — em particular os verbetes sobre *choroidal nevus*, *choroidal melanoma* e *melanocytoma of the optic disc* — além de artigos originais do grupo do Wills Eye Hospital / Ocular Oncology Service e capítulos clássicos de oncologia ocular. Consulte sempre o oftalmologista para orientação individualizada: este texto tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica presencial.

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