A blefarite é uma causa comum de olho vermelho, caracterizada pela inflamação e vermelhidão da margem das pálpebras. Entenda sintomas, causas, diagnóstico e tratamento — incluindo o papel dos ácaros Demodex nos casos refratários.
Doenças dos Olhos · Publicado em 26 de agosto de 2023 · Atualizado em 20 de janeiro de 2024
A blefarite é uma causa de olhos vermelhos, caracterizada pela vermelhidão da margem das pálpebras.
Este problema é caracterizado pelo excesso de oleosidade nas glândulas lipídicas (gordura) das pálpebras — essas glândulas são chamadas de glândulas de meibomius. Portanto, o problema pode também ser chamado de Meibomite.
Principais sintomas da blefarite: olho vermelho, inchaço com vermelhidão das pálpebras e secreção purulenta.
A blefarite pode atingir pessoas de todas as idades, inclusive bebês, crianças, adultos e idosos. Este bebê tem blefarite da pálpebra inferior do olho direito — nota-se inchaço, vermelhidão e perda das linhas normais da pálpebra. (Autor: Sage Ross, Wikimedia Commons)
Quais as causas da blefarite?
Idade (mais comum na adolescência e vida adulta); fatores hormonais (testosterona e ciclos menstruais nas mulheres); fatores ambientais e comportamentais (poluição, uso de maquiagem, pó, poeira, exposição a partículas finas, hábito de levar as mãos aos olhos, coceira); maior tendência à oleosidade da pele e à descamação; associação com atopia ou alergia de pele, dermatite seborreica e psoríase; e os ácaros da pele que vivem na margem dos cílios e nas glândulas de meibomius — Demodex folliculorum e Demodex brevis.
Caso de blefarite seborreica: nota-se (seta) um colarette — pequena caspa que se forma nos cílios, resultado da descamação da pele.
Como tratar a blefarite?
Depende da severidade do problema. Se for leve ou moderada, o melhor tratamento são compressas mornas e o início de uma rotina de higienização dos cílios.
As compressas mornas são muito interessantes e podem ser feitas antes da higiene dos cílios. Elas ajudam a abrir os poros das glândulas e a tornar a secreção interna mais flúida, permitindo sua expressão/drenagem pelos ductos. Veja na foto abaixo como fica a obstrução dos pontos de drenagem na blefarite posterior.
Orifícios entupidos das glândulas de meibômio ao lado dos cílios (blefarite posterior); nota-se ainda secreção purulenta. A blefarite pode ter componente infeccioso — geralmente estafilocócico ou similar.
A limpeza dos cílios pode ser feita com gel específico — como o Blephagel, o Systane Lid Wipes — ou com Shampoo Infantil Neutro (ex.: Johnson Baby Amarelo).
No caso do shampoo neutro, crie uma espuma pingando uma pequena gota de shampoo e duas ou três gotas de água; aplique a espuma com os olhos fechados na margem da pálpebra em movimentos circulares e enxágue completamente.
O uso de soluções próprias para limpeza (Blephagel ou Systane Lid Wipes) permite a higiene com mais conforto e menos risco de irritação devido ao caráter neutro da solução. As compressas incluídas nos produtos ajudam a limpar os poros das glândulas e a remover pequenas sujeiras nos cílios (colarettes — visíveis ao exame de lâmpada de fenda).
Nos casos mais severos, pode ser necessário o uso de antibiótico tópico e corticoesteroide (colírio ou pomada oftalmológica) — chamada de terapia combinada. Este tratamento deve ser sempre indicado pelo oftalmologista, porque o uso desnecessário de antibióticos pode piorar o problema; além disso, corticoides podem levar a complicações como glaucoma cortisônico e catarata. Após cessar os corticoides, muitos pacientes apresentam efeito rebote, com piora dos sintomas, pois não houve tratamento da causa-base (entupimento das glândulas).
Blefarite difusa com inchaço intenso de toda a pálpebra superior do olho direito.
É importante minimizar o uso de corticoesteroides e favorecer a manutenção dos casos com a limpeza de cílios.
O uso de lubrificantes sem conservantes é interessante, pois pode aliviar o olho seco associado e ajudar o paciente a coçar menos os olhos.
Coçar os olhos pode ser muito prejudicial e causar piora do problema. Ao ferir as pálpebras com as unhas, há maior proliferação bacteriana nas microlesões, agravando a blefarite.
Para pacientes com muita coceira ou alergia associada, pode ser interessante o uso de colírios antialérgicos — como Octifen, Patanol S, Lastacaft e similares.
Cada caso de blefarite deve ser individualmente avaliado quanto à existência de: olho seco, alergia associada ou rinite alérgica, atopia, uso de maquiagem e o hábito de coçar os olhos.
Equipe médica
Nossa equipe especializada em córnea e superfície ocular
Blefarite costuma caminhar junto com olho seco, alergia ocular e ceratocone. Nossos especialistas em córnea acompanham o caso do início ao fim — do tratamento clínico à adaptação de lentes especiais quando necessário.
O uso de vitaminas para auxiliar a produção de uma secreção mais saudável das glândulas pode ser benéfico. Existem formulações à base de Ômega 3 e Vitamina D para essa condição, como o L-CAPS D+ e o Preservit, disponíveis na maioria das farmácias. O ômega 3 tem ação anti-inflamatória e ajuda a tornar a secreção lipídica menos espessa.
Para casos recidivantes e/ou mais graves, pode ser indicado o tratamento com antibiótico por via oral (como azitromicina ou doxiciclina). Para esses casos existem tratamentos excelentes como expressão das glândulas de meibomius no consultório, Luz Intensa Pulsada (IPL) e Lipiflow.
Esses casos recidivantes devem ser sempre avaliados quanto à presença de Blefarite por Demodex sp. — ácaro que pode agravar e/ou causar blefarite resistente ao tratamento e calázios recidivantes.
O iLUX é um dos tratamentos que usa Luz Pulsada para tratamento da blefarite / meibomite.
A blefarite pode causar outros malefícios?
É comum, nos casos de blefarite crônica, o aparecimento de terçóis (hordéolos) e calázios, que podem trazer desconforto e alteração estética palpebral. Esses problemas ocorrem mais facilmente quando há entupimento das glândulas de meibomius, pois favorece a migração das bactérias para os ductos quando não há correto escoamento da secreção meibomiana.
À esquerda, terçol interno; à direita, terçol externo. O nome técnico para terçol é hordéolo.
Ainda, o olho seco evaporativo ocorre muitas vezes nesses casos, pois a qualidade da lágrima fica prejudicada pela ausência da secreção lipídica — que deveria funcionar como uma 'tampa' que ajuda a evitar a evaporação da lágrima.
O olho vermelho crônico pode ser causa de constrangimento social em eventos, no mundo corporativo e em diversos locais. Alguns pacientes ignoram os sintomas inicialmente, mas procuram ajuda quando notam que o olho vermelho está sendo percebido por outros.
A blefarite pode cronicamente causar olho vermelho, coceira nos olhos, perda de cílios permanente e aparecimento de cílios mal formados (distiquíase).
O uso de maquiagem pode piorar estes casos?
O uso de rímel ou de lápis pode favorecer o entupimento dos poros das glândulas e piorar a blefarite. Pode haver também alergia associada que piora com o uso destes produtos.
Algumas pessoas precisam usar maquiagem devido às suas funções de trabalho. Nesses casos, é importante a demaquilagem adequada com produtos como Blephagel ou Systane Lid Wipes antes de deitar.
Use sempre maquiagem nova e evite produtos abertos há mais de 2–3 meses, pois pode haver contaminação. Outro hábito a ser evitado é o compartilhamento de maquiagens entre diferentes usuários.
Os ácaros Demodex e seu papel na blefarite crônica refratária
Diversos pacientes apresentam um quadro de blefarite causado e/ou agravado pela presença de uma população exacerbada dos ácaros da pele (Demodex folliculorum e Demodex brevis).
Sintomas da blefarite por Demodex
Olho vermelho
Pálpebra vermelha e irritada
Obstrução das glândulas de meibomius
Blefarite resistente ao tratamento
Sinal patognomônico: colarettes cilíndricos na base dos cílios.
Deve-se suspeitar desta condição nos pacientes que têm blefarite resistente ao tratamento, geralmente já avaliados por diversos oftalmologistas sem sucesso, tendo tentado múltiplos colírios, lubrificantes e pomadas sem alívio dos sintomas.
A) Colarettes cilíndricos por Demodex. B) Obstrução de glândulas de meibomius por Demodex. C) Blefarite comum sem Demodex. D) Ácaros na microscopia de luz.
Estes ácaros são diminutos, vivem dentro das glândulas e nas margens, são invisíveis ao olho nu e se alimentam da secreção sebácea das glândulas de Meibomius e da secreção dos cílios.
Os diminutos ácaros Demodex se alimentam da secreção das glândulas da margem das pálpebras.
Na maioria dos pacientes são comensais da pele e não causam problemas. Porém, em certos pacientes, há tendência à proliferação exacerbada, causando quadros de blefarite refratária ao tratamento convencional com antibióticos, pomadas e higiene de cílios com produtos habituais.
São diagnosticados ao exame de lâmpada de fenda quando se observam colarettes específicos — cilíndricos e mais depositados nas bases dos cílios; tipicamente há obstrução das glândulas de meibomius associada e dificuldade de sua expressão.
Colarettes cilíndricos na base dos cílios, típicos e patognomônicos de blefarite por Demodex sp.
Esses colarettes específicos são patognomônicos (100% de certeza) da presença de Demodex sp., não havendo necessidade de exame dos cílios epilados à microscopia de luz para identificação. Existe habitualmente coinfestação com bactérias como Staphylococcus aureus e/ou epidermidis.
Tratamento da blefarite por Demodex
A limpeza dos cílios com produtos à base de Tea Tree Oil (óleo de melaleuca) é muito benéfica. O óleo tem propriedades antibacterianas, antifúngicas e — mais importante — atividade acaricida contra o Demodex sp. (folliculorum e brevis).
Comercialmente disponível no Brasil temos o Blefos — espuma para higiene dos cílios com óleo de melaleuca. Alguns oftalmologistas ainda preferem a prescrição de produtos manipulados com o óleo de melaleuca.
Alguns pacientes com dificuldade de drenagem das glândulas de meibomius apresentam benefícios importantes ao serem tratados com expressão das glândulas no consultório e/ou com Lipiflow ou Luz Pulsada (IPL).
Nos Estados Unidos está disponível um colírio específico indicado para Blefarite por Demodex sp. chamado Xdemvy (lotilaner 0,25%), que tem propriedades anti-ácaro excelentes — ainda não está comercialmente disponível no Brasil e só pode ser comprado no exterior com receita médica.
Ação acaricida (anti-ácaro) do colírio com lotilaner disponível nos EUA sob a marca Xdemvy.
O glaucoma é um grupo de doenças que lesiona progressivamente o nervo óptico, o cabo que leva a informação visual do olho para o cérebro. É a principal causa de cegueira irreversível no mundo e, na forma mais comum, evolui em silêncio por anos — sem dor e sem sintomas iniciais. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado permitem estabilizar a doença e preservar a visão útil por décadas.
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A blefarite é uma causa comum de olhos vermelhos, caracterizada pela vermelhidão da margem das pálpebras. O problema é causado pelo excesso de oleosidade nas glândulas lipídicas da pálpebra (glândulas de meibomius) — por isso também é chamado de meibomite. É uma condição crônica e intermitente, porém muito bem controlada com tratamento adequado.
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