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Pesquisa Inovadora da USP Comprova: Crosslinking é a Melhor Estratégia Contra o Ceratocone no SUS

Estudo de doutorado do Dr. Lucca Ortolan Hansen na FMUSP demonstrou que o crosslinking corneano é altamente custo-efetivo no SUS, evitando quase 1.000 transplantes a cada 10.000 olhos tratados e poupando recursos públicos.

Dr. Lucca Ortolan Hansen — pesquisador e autor do estudo sobre crosslinking e ceratocone no SUS.

O ceratocone é uma doença ocular progressiva que afina e deforma a córnea, ameaçando a visão de jovens e adultos em todo o mundo. No Brasil, onde o Sistema Único de Saúde (SUS) financia mais de 95% dos transplantes de córnea, o avanço da doença representa um desafio tanto clínico quanto um grave problema socioeconômico.

Diante deste cenário, uma pesquisa de doutorado inovadora desenvolvida na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) trouxe respostas definitivas que têm o potencial de transformar as políticas públicas de saúde ocular no país. O estudo foi conduzido pelo oftalmologista Dr. Lucca Ortolan Hansen e desenhado em parceria com o Dr. Samir Bechara — um dos maiores e mais respeitados especialistas em cirurgia refrativa do Brasil e, à época, chefe do Departamento de Cirurgia Refrativa da USP.

Dividida em duas frentes de investigação, a pesquisa mapeou a verdadeira dimensão epidemiológica da doença nas novas gerações e provou, através de modelagens matemáticas complexas, que o tratamento precoce não é apenas uma necessidade médica, mas a solução mais inteligente para a economia do país.

Detalhe na lâmpada de fenda mostrando cicatrização no ápice da córnea e espessura extremamente reduzida (200 micrômetros) em caso de ceratocone avançado. Documentado pelo Dr. Lucca Ortolan Hansen.
Córnea com ceratocone avançado — cicatrização e afinamento extremo.

A Epidemia Oculta do Ceratocone Pediátrico

A primeira fase da pesquisa, que resultou no artigo "Pediatric keratoconus epidemiology: a systematic scoping review", focou em entender a real incidência e prevalência do ceratocone na população infanto-juvenil.

Historicamente, a literatura médica estimava que o ceratocone afetava cerca de 1 em cada 2.000 pessoas. No entanto, o levantamento global feito pelos pesquisadores demonstrou que as taxas reais são muito maiores. Com o advento de tecnologias diagnósticas precisas, como a tomografia de córnea, descobriu-se que a prevalência pode chegar a espantosos 4,9% das crianças e adolescentes em determinadas regiões.

Na juventude, o ceratocone tem um perfil mais agressivo e avança rapidamente, o que torna o diagnóstico tardio um perigo iminente. O estudo evidenciou a importância urgente de políticas de rastreio e triagem nas escolas, fundamentais para evitar consequências graves como a perda visual irreversível, a ambliopia e a fila de transplantes.

Crosslinking: Salvando Visões e Recursos no SUS

A segunda etapa do estudo debruçou-se sobre a viabilidade econômica do tratamento. Os resultados desta fase alcançaram repercussão internacional e foram publicados no International Journal of Environmental Research and Public Health (IJERPH), amplamente reconhecido como uma das publicações científicas de saúde pública mais importantes e influentes do mundo.

No artigo "Cost-Effectiveness of Corneal Collagen Crosslinking for Progressive Keratoconus: A Brazilian Unified Health System Perspective", o Dr. Lucca Ortolan Hansen utilizou um modelo probabilístico avançado de microssimulação de Markov para comparar o custo-efetividade do tratamento convencional do ceratocone contra a aplicação do Crosslinking Corneano (CXL) — procedimento que utiliza radiação ultravioleta e riboflavina para estabilizar e enrijecer a córnea doente — sob a ótica financeira do SUS.

Procedimento de crosslinking corneano — luz ultravioleta aplicada sobre a córnea saturada com riboflavina para fortalecer as fibras de colágeno. Fonte: Wikimedia Commons.
Crosslinking corneano com luz UVA.
Implante de anel intraestromal (segmento de anel corneano) em paciente com ceratocone, realizado pela técnica manual pelo Dr. Lucca Ortolan Hansen durante a residência no Hospital das Clínicas da USP.
Anel intraestromal implantado em córnea com ceratocone.

Descobertas que mudam o jogo

Redução drástica na fila de transplantes: A simulação revelou que o grupo submetido ao Crosslinking de forma precoce apresentou uma necessidade drasticamente menor de cirurgias de alta complexidade. A intervenção evitou, em média, cerca de 968 transplantes de córnea a cada 10.000 olhos tratados.

Alta custo-efetividade: O Crosslinking demonstrou ser a estratégia disparadamente mais custo-efetiva em todas as simulações, demandando um investimento muito inferior ao teto de disposição a pagar (Willingness to Pay) da economia nacional.

Retorno financeiro aos cofres públicos: A pesquisa calculou o Benefício Monetário Líquido Incremental (INMB) e obteve resultados altamente positivos. Em termos práticos: o Crosslinking poupa dinheiro do SUS. Financiar o procedimento precocemente é imensamente mais barato para o Estado do que arcar com as despesas e internações de um transplante de córnea, sem contar a reabilitação, o manejo de rejeições e a perda da capacidade laborativa de um paciente jovem e cego.

Transplante de córnea bem-sucedido em paciente com ceratocone — a córnea doadora transparente e o enxerto estável. Documentado pelo Dr. Lucca Ortolan Hansen.
Transplante de córnea bem-sucedido em ceratocone.
Exemplo de complicação de transplante de córnea mostrando cicatrização — uma das razões pelas quais o crosslinking precoce é preferível ao transplante. Documentado pelo Dr. Lucca Ortolan Hansen.
Complicação de transplante de córnea com cicatrização.

Um chamado para novas políticas de saúde pública

O trabalho concebido pelo Dr. Lucca Ortolan Hansen sob a orientação do Dr. Samir Bechara ultrapassa os muros da academia e entrega um manual de gestão baseada em evidências.

A conclusão da tese é um divisor de águas: frente à crescente prevalência do ceratocone e aos altos custos da doença não-tratada, a implementação do Crosslinking Corneano deve ser adotada com urgência e priorizada como política pública dentro do Sistema Único de Saúde.

Proteger as córneas dos jovens brasileiros através do Crosslinking é proteger a força produtiva do país, preservar recursos públicos escassos e, acima de tudo, garantir um futuro com qualidade de visão e de vida para milhares de pessoas.

Referências e acesso aos estudos

Tese de Doutorado (USP): Hansen, L. O. "Custo-efetividade do crosslinking corneano para ceratocone progressivo sob a perspectiva do pagador do Sistema Único de Saúde". Tese de Doutorado Direto — Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), 2024.

Artigo IJERPH: Hansen, L. O. et al. "Cost-Effectiveness of Corneal Collagen Crosslinking for Progressive Keratoconus: A Brazilian Unified Health System Perspective". Int. J. Environ. Res. Public Health, 2023, 20(4), 3080.

Artigo de Prevalência: Hansen, L. O. et al. "Pediatric keratoconus epidemiology: a systematic scoping review". PMID: 38347389, 2024.

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