Princípios do tratamento
A conduta depende de três fatores: profundidade da cicatriz, densidade da opacidade e localização em relação ao eixo visual. O algoritmo clássico progride do menos invasivo para o mais invasivo.
1. Correção óptica
Em leucomas periféricos ou com distorção óptica refratária, lentes rígidas gás-permeáveis ou lentes esclerais podem restaurar boa visão sem cirurgia — formam uma superfície óptica regular sobre a córnea irregular. Esse é o primeiro passo em muitos casos porque evita intervenção cirúrgica definitiva.
3. PTK — ceratectomia fototerapêutica a laser
A ceratectomia fototerapêutica (PTK — phototherapeutic keratectomy) usa o laser excimer para remover camadas superficiais da córnea com precisão micrométrica. Indicada para opacidades anteriores superficiais (até 80-100 μm de profundidade), distrofias corneanas anteriores, erosões recorrentes e irregularidades pós-inflamatórias. Ambulatorial, sem cortes; recuperação semelhante à PRK. Limitação: só atinge opacidades superficiais.
4. Ceratectomia superficial cirúrgica
Para opacidades muito anteriores e localizadas (ex.: depósitos calcários, nódulos de Salzmann), a remoção mecânica simples com lâmina ou espátula (com ou sem mitomicina C adjuvante) pode ser suficiente. É ambulatorial e de recuperação rápida.
6. Ceratopigmentação — restauração estética em leucomas sem visão útil
Quando a cicatriz é tão extensa ou antiga que não há mais indicação de transplante para recuperar visão — seja porque o nervo óptico ou a retina já não respondem, seja por opção do paciente — existe uma alternativa importante: a ceratopigmentação, uma espécie de 'tatuagem' estética da córnea.
A técnica utiliza pigmentos biocompatíveis depositados no estroma corneano, geralmente com auxílio do laser de femtossegundo (que cria um canal intraestromal de espessura e profundidade precisas) ou por técnica manual com agulha. O pigmento recobre a opacidade branca e devolve o aspecto natural da córnea, reproduzindo cor, desenho e contorno da íris do olho contralateral.
Indicações típicas:
Leucomas centrais densos em olhos cegos ou com visão útil irrecuperável (após trauma, infecção, múltiplas cirurgias sem sucesso, ambliopia profunda)
Olhos fticos (muito atrofiados) antes de uso de prótese
Íris com defeitos anatômicos (coloboma, aniridia pós-trauma) — em indicações selecionadas, combinada com ceratopigmentação estética
Pacientes que recusam transplante ou não têm condições clínicas/anatômicas para o procedimento (ex.: vascularização corneana intensa, perfil inflamatório difícil)
O procedimento é ambulatorial, tem recuperação rápida e não devolve visão — o objetivo é estritamente estético e psicossocial: o paciente volta a ter um olho de aspecto natural, o que pode ter grande impacto em autoestima, relações sociais e qualidade de vida. É importante diferenciar: a ceratopigmentação não compete com o transplante quando há indicação visual — é uma opção complementar para casos onde a visão não é mais o alvo.
Acompanhamento
Após qualquer tratamento — óptico, medicamentoso ou cirúrgico — o acompanhamento inclui topografia, OCT de córnea, microscopia especular e refração periódica. Em pacientes transplantados, o seguimento é vitalício e inclui vigilância para rejeição, catarata e glaucoma pós-transplante.
Referências
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